Certas coisas conseguem me tirar do sério. Muitas coisas que eu acabo ouvindo / lendo sobre meu filho e/ou crianças com deficiência no geral, sobre ser mãe de pessoa com deficiência, sobre a deficiência em si me incomodam. A começar pelo que ouço a respeito de nós, digo meu filho e eu:
Eu não acho que todo mundo é obrigado a saber como é a minha vida. Mas acho que as pessoas tem obrigação de querer saber como lidar com uma pessoa com deficiência. Isso é uma questão de convívio em sociedade, é bom para os outros e, para si tentar melhorar como cidadão. Muitas começam uma conversa comigo de uma forma meio torta, mas consigo perceber a ignorância e interesse por trás, portanto relevo e prefiro dar continuidade à conversa para esclarecer alguns aspectos e dúvidas. Nesse caso, nunca me sinto ofendida.
Mas, algumas coisas me decepcionam, acho que essa é a palavra.
Em primeiro lugar, está o, algumas vezes ouvido, "Ah, tadinho!".
DETESTO OUVIR ISSO!!! Não, meu filho não é um coitado. Ele tem algumas dificuldades, ele tem atraso. Sim, eu sei. Porém, ele faz as coisas do jeito dele. E ele é muito feliz. Como alguém que é MUITO feliz e, MUITO amado, pode ser coitado? O que querem dizer com "tadinho"? É por que ele ainda não anda? Por que ele ainda não fala e talvez não venha a falar? Por que ele não entende a comunicação verbal profundamente? E quem disse que ele não consegue se expressar? Que não consegue entender? Quem quiser, poderá entendê-lo. É só se esforçar um pouco. Infelizmente, é mais fácil "jogar a toalha" e, tratar como um coitado incompreendido, do que tentar entender a diferença, tentar entender a linguagem, tentar se comunicar.
O problema da deficiência, não é a deficiência. Muito menos a pessoa com deficiência. O problema são os outros.
A deficiência não significa o fim da linha. A pessoa com deficiência não é incapaz. Mas ela precisa da colaboração das outras pessoas para viver em sociedade, assim como qualquer um precisa disso. Todos temos necessidades especiais.
Depois, eu diria que vem o "Você se faz de vítima!".
Ah, isso eu também ODEIO ouvir. Ou não sabem o que significa "ser vítima de algo", ou interpretam TUDO o que eu digo de forma errada. Porque, eu não sei exatamente como, casos de superação tem vítimas e, não vencedores. Na verdade eu não me considero vencedora. Meu filho que é o vencedor. Ele que supera as dificuldades dele para fazer as coisas. Eu não faço mais que obrigação de mãe em proporcionar qualidade de vida a ele. As pessoas não entendem que, com amor, tudo fica mais fácil. É clichê, já é uma frase tão batida que perdeu o significado. Vou relembrar: quando você ama muito alguém, cuidar não é uma batalha, é um prazer. Claro que tem suas dificuldades, como sempre, para qualquer um. Mas o amor que existe é maior do que a dificuldade.
E é aí que entra o tão, tão, mas tão ouvido "Você é guerreira".
Não, eu não gosto de ser chamada assim e, já mencionei antes. Mas isso não me ofende, entendo que ninguém fala por mal. Só acho que é algo que falam na falta de palavras. Soa estranho, parece que cuidar dele é um suplício. Além disso, eu não estou numa guerra. Eu não sou guerreira por cuidar dele, dar carinho, amor. Na verdade, acho que o sujeito da frase é outro: ele, não eu. Se ele é o vencedor, ele é o guerreiro.
Isso me leva ao "Te admiro muito pela sua força.".
Olha, vou ser franca: pra mim, qualquer mãe que não aguente o tranco, não está preparada pra ser mãe e, nem deve ser [não estou falando de momentos de fraqueza, de cansaço, de querer sumir, isso todas tem]. Criar filho é difícil. O que mais me atrapalha, voltando ao que já falei, são os outros. Me atrapalha quem não construiu uma rampa ao lado de uma escada. Me atrapalha não me ouvirem, não entenderem as necessidades específicas do meu filho e, nem tentarem facilitar a interação dele com os outros. Eu me viro com ele, ele se vira como pode. Mas quem não precisa de uma ajuda? E também volto ao clichê, a minha força vem do meu amor por ele. Hoje, as pessoas se impressionam que eu amo meu filho? Por que, não amar um filho já está tão comum?
Karma: Nem preciso dizer o quanto acho insuportável ouvir que o "problema dele é karmico". Nem vou me prolongar, acho que dispensa explicações, mas, sim, já ouvi. Vou ser breve: Ele não é meu castigo. Ele não é reação ruim de ação ruim. A vida dele não é miserável e ele não é prisioneiro precisando de libertação espiritual. Não é saga ainda não cumprida. Ele não é um espírito precisando recuperar equilíbrio perdido em outra encarnação. Pronto, expliquei porque ele não é karma, nem pra mim e, nem pra ele mesmo, seja no budismo, na teosofia, no new age ou no espiritismo. Ele é puro amor e alegria.
Por fim, me incomoda muito quando começam a conversa da seguinte forma "Desculpa perguntar mas..." ou "Se não quiser falar tudo bem.".
Primeiro, que mãe não ama falar do seu filho? Das conquistas, das gracinhas? Então, parece que meu filho não tem capacidade de nada disso, que eu vivo de luto e, não tenho nada de bom pra falar dele? Acham que vou falar sobre um velório?
Quer falar com uma pessoa com deficiência ou sua mãe? O que te leva a querer falar? Curiosidade? Interesse? Em quê? Seja movido por isso e seja natural, como fala com qualquer pessoa. Eu sei que meu filho tem deficiência, eu não nego, nem para mim, nem para ninguém. Então, não precisa agir como se eu não quisesse nem ouvir falar numa coisa com a qual eu convivo todo dia e, muito bem! Simples!

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