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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Capítulo II: UTI

Agora eu estava em casa e Johann na UTI.
Todos os dias, eu acordava cedo, fazia a ordenha para manter a produção de leite materno. Eu morava a uma hora da maternidade, isso sem trânsito. Então sempre levei mais tempo para chegar, em média meia hora a mais. Me "arrumava" para chegar lá 9:30 [foi a única época da minha vida em que eu não me arrumei para sair de casa. Não me maquiava, não usava salto -saía de chinelos -, nem me esforçava numa roupa bonitinha. Realmente não estava ligando]. A UTI abria as 10h, eu chegava, ficava com ele, às 11h eu ia pro lactário tirar o almoço dele. Às12h, ele seria alimentado, com pouquíssimos lm do meu leite, através da sonda e, assim a cada três horas.
Como eu mencionei no último post, nos primeiros dias ele passou pela avaliação de uma geneticista. Ele chegou a usar um "capacete de oxigênio" ao nascer, apenas para adaptá-lo, não precisou ficar, nem ser entubado. Depois, vieram alguns exames para buscar qualquer outra malformação. Foi feito ultra-som na cabeça, que constatou algum líquido a mais no cérebro, mas que logo foi reabsorvido. Ultra nos órgãos internos, constatando uma comunicação intra ventricular [sopro no coração] bem pequena, que deveria ser acompanhada, poderia fechar sozinha. Testículos fora da bolsa, também deveriam ser acompanhados, poderiam descer sozinhos.Os outros órgãos, ok. Raios X, ok. 
Ele era muito pequeno, nasceu com 1.410 kg. Ao nascer, é comum perder peso, depois recuperá-lo. Não lembro exatamente quantos dias levou para que ele recuperasse, mas demorou mais que o normal, lembro bem da minha preocupação. Toda manhã, os bebês eram pesados e a tabela era colada do lado de fora, na entrada da UTI. Eu chegava e era a primeira coisa que ia ver. Já encontrava um amontoado de mães fazendo o mesmo. Eu sentia uma invejinha branca da felicidade da maioria, ao saírem sorrindo com a notícia que o quadro trazia. Inveja branca, claro, pois eu torcia muito pela recuperação de cada bebê, só queria que o meu tivesse uma boa recuperação também.
Lembro-me, é claro, perfeitamente, do primeiro dia em que o peguei no colo. Foi no terceiro dia de vida dele. Dia 02 de dezembro. Como eu era desajeitada! A enfermeira o retirou da incubadora e o colocou no meu colo, todo enroladinho, quentinho. Não poderia ficar muito tempo, a temperatura de fora era muito mais baixa. Eu vou confessar que achava ele bem feinho. Tinha um nariz enorme, era pele e osso. Mas olhava fixamente nos meus olhos e, eu, nos olhos dele. Já parecia que ele se comunicava. E me dava um aperto, ele não parecia saudável e no olhar, tinha muito amor e um pedido de socorro. Era um olhar que dizia "eu preciso de você, não vá embora. Eu te amo." Era um olhar muito fixo. Ele não olhava para outro lado quando estava no meu colo. Com o pai era a mesma coisa. 
A primeira vez que o pai o pegou no colo, foi um pouco traumática. Não foi no mesmo dia, eu percebia a insegurança dele. Pedi à enfermeira que estava com ele no dia, que o retirasse da incubadora e colocasse no colo do pai. Ela recusou, disse que ele não poderia sair da incubadora. Mas eu havia sido aconselhada pelo pediatra da UTI que pegasse ele algumas vezes por dia, já que ele não estava entubado, poderia, por pouco tempo. Ele explicou que o bebê PRECISA de contato com os pais, é muito óbvio. Mesmo os que estavam entubados, saíam. Menos os mais graves. Ela relutou, eu insisti, expliquei a orientação do pediatra, a qual ela deveria saber, pois era assim que funcionava. Ela tirou o meu bebê de qualquer jeito, não o enrolou como "charutinho", que era a regra, para tirá-lo aquecido. Tirou, colocou no colo do pai com a maior truculência e resmungando. Ele ficou assustado, eu arregalei os olhos e, nem sei o que me segurou para que eu não voasse na cara dela. Eu perguntei "por que você não enrolou e agasalhou ele, como é para fazer?" Ela ficou de cara feia, pegou uma coberta e jogou por cima dele, mal se deu ao trabalho de ajeitar, eu tomei as rédeas e enrolei ele, não queria que ela encostasse mais em um fio de cabelo dele. Ela começou a aumentar o tom de voz comigo e, eu só disse que nem ia discutir, não sou de barraco, muito menos ali era local pra isso, com dezenas de bebês frágeis dormindo. Fui conversar com a chefe dela e exigi que ela não se aproximasse mais do meu filho para NADA. Assim foi feito.
Depois, ouvi mais uns dois relatos de mães que tiveram o mesmo problema com ela. Era grossa, truculenta. Descontava as suas frustrações, inaptidão total ao trabalho. Deveria fazer miçanga ou vender hot dog na praça, nunca ser enfermeira. Fiquei, inclusive, chocada e, com o pé atrás pelo hospital não ter tomado atitude, além de trocar ela de bebê. Ela não pegaria mais o meu, mas pegaria outros. 
Ele ficou quase um mês na UTI 1. A UTI 1 era a primeira fase, bebês mais graves, ele ainda era alimentado pela sonda.
Dia 17 de dezembro, ele foi para a UTI 2, mas ainda na incubadora. Comemoramos, todos os pais viviam ansiosos por esse dia. Ali, começaria a ser alimentado via oral, mamadeira! Eu fazia questão de dar todas as mamadeiras a ele, enquanto a UTI estivesse aberta para os pais. Isso porque, além de que EU sou a mãe e achar que a mãe [ou pai - ele também fazia] que tem que alimentar, trocar fraldas e roupas, mesmo na UTI, era um momento gostoso em que eu ficava com ele, com a maior paciência, já que ele levava uma hora/uma hora e meia para tomar a mamadeira de 20 ml na época. As enfermeiras tinham que cuidar, cada uma, de 4 bebês. E não eram todas as mães que podiam estar lá o tempo todo. Então, a enfermeira tinha uns 15 minutos para alimentar cada um. Atingidos os 15 minutos, elas colocavam o resto de leite da mamadeira para a sonda e, terminavam bem rápido. Eu entendia que era para não atrasar a alimentação dos próximos, mas eu nunca gostei desse método, visto que atrasaria a saída dele da UTI, já que os únicos motivos dele estar internado eram ganhar peso e, aprender a mamar sem se sufocar. Volta e meia, elas vinham falar que ele não poderia demorar mais de uma hora com a mamadeira, pois se ele comia num intervalo de 3 horas a partir do começo da refeição, teria um intervalo menor quanto mais demorasse. Ah, a isso, eu nunca dei atenção. Eu me recusava a colocar sonda de volta. Funcionava, por que eu mudaria? Ele demorava, mas no horário da próxima refeição, já estava com fome novamente, não havia motivo para sonda. Claro que, nos primeiros dias de adaptação, era feito assim. Mas, logo, ele foi aguentando tomar o leite todo na mamadeira, mesmo devagar. Eu não poderia voltar com a sonda, seria um retrocesso.
Ele começou a ser atendido por uma fonoaudióloga, para me ajudar com a alimentação. Ele mal conseguia coordenar a respiração com a sucção, o que o levava a se engasgar toda vez e, a saturação caía. Algumas vezes, ficava roxinho, sem ar. Olhando para trás, não entendo como eu mantive a calma nesses momentos. Sentava mais ele, batia nas costinhas, ficava de olho no monitor. Esperava ele recuperar o ar e voltava com a mamadeira. A fonoaudióloga foi fundamental, me ensinou a posição ideal, massagens no rosto que serviam para ele não engolir ar, dar a mamadeira e, tirar de tempos em tempos, para ele respirar, etc, etc. Na avaliação, lembro-me que olhei ela fazendo e pensei "será que isso funciona? Uma coisa tão simples!" E, funcionou, é claro. Hoje eu conheço melhor esse trabalho e admiro demais. Eu tinha que fazer os exercícios no rosto dele antes de cada mamada. Entre o natal e mesversário dele, que seria 29/12, ele saiu da incubadora e foi pro bercinho.
No dia do 'mesversário', eu estava tão ansiosa, que saí de casa sem ter ordenhado. Cheguei lá, fui tomar café da manhã e, comecei a passar MUITO mal. Minha pressão estava estranha, eu estava tonta, tento calafrios, não conseguia me mexer. Uma mãe, que estava tomando café comigo, me deu sal, achando que a minha pressão estivesse baixa [também achei] e, me ajudou a subir pra UTI. Procurou uma enfermeira para me ajudar e, esta me levou até o CTI. Tiramos a pressão e estava nas alturas. 16 por alguma coisa, isso não lembro exatamente. Estava com uma febre de 40º. Ela, como era justamente a que ficava no lactário, percebeu que se tratava de mastite. Tomei uns remédios e ela veio com a bomba de ordenha. Eu estava ficando apavorada pois tinha encomendado bolo, docinhos e lembrancinhas para comemorar um mês de vida dele. Convidei a família próxima. Fui melhorando, o hospital estava implicando com a minha presença no CTI pois é apenas para mães internadas do pós parto. Mas melhorei rápido e corri pra arrumar a festinha dele, sempre indo vê-lo, alimentá-lo, indo ordenhar. A família foi chegando a tarde. Antes do parabéns, peguei ele do berço e levei até a porta, para mostrá-lo através do vidro. A UTI permitia, além da visita dos pais, apenas dos avós. Então uma boa parte que tava ali, não conhecia ele. Achei engraçado que, minha avó, apesar de ter ido a UTI visitá-lo quase todo domingo, que era o dia dos avós, ficou na cara da porta como de nunca tivesse visto e todo mundo pra trás. "Vó, deixa o pessoal ver também!", risos...
Ele foi mamando cada vez melhor, sem se sufocar, ganhando peso devagar, até que, atingiu o peso e, já queriam dar alta para  13 de janeiro, uma quinta feira. Só que, ele não se sufocava havia uns 2 dias apenas, mas engasgava ainda. Fiquei morrendo de medo de chegar com ele em casa e acontecer. Então pedi que só dessem alta uns dias depois, para ter certeza de que ele tinha aprendido a mamar. No domingo, dia 16 de janeiro, foi dada a alta. Saiu mamando 60 ml, ainda engasgava muito pouco, eu havia aprendido a controlar ele e socorrer. Colocamos aquele mini baby, de 2.210 kg num bebê conforto, dentro do qual ele quase sumiu, tiramos fotos com a enfermeira que mais amo na vida, que chamava ele de filho, cuidava dele com o maior amor do mundo e, nos despedimos de todos. 
Chegamos em casa e, como meus pais e 2 dos irmãos eram meus vizinhos, já na porta havia 2 desenhos de 'bem vindo', feitos por cada irmão, uns balões pendurados também, enchidos por meus pais e, eles na porta. Johann sempre foi recebido com muito amor, alegria e muita festa.

3 comentários:

  1. Nossa, eu chorei aqui Ale! É como se eu estivesse vivendo essa situação na qual você e seu garotão passaram!

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  2. Ale. Relembrei minha história. Davi teve alta com 2.215kg. Um micro bb.

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