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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Capítulo I: Da gravidez aos primeiros dias

No último post, fiz uma apresentação à Síndrome Cri Du Chat. Hoje vou contar como foi da minha gravidez até o quarto dia de vida dele, que foi quando eu tomei alta da maternidade, mas ele permaneceu na UTI.

Desde a gravidez, mesmo ela indo bem, eu SEMPRE senti que ele ia nascer prematuro e com alguma questão de saúde... Sim, eu sempre soube e, talvez isso tenha me preparado melhor.
Certa vez, passando pelo corredor do apartamento onde eu morava, olhei para dentro do quartinho dele semipronto e, me veio um pensamento à cabeça: “Estranho, tenho certeza que ele não vai nascer com a saúde perfeita.” Meu pai e minha mãe de criação [essa história vai ficar para outro post] moravam ao lado. Ela bateu à minha porta pouco depois e, comentei sobre o assunto com ela. Ela disse que também sabia, quando estava grávida do meu irmão do meio [primeiro dela], que ele viria prematuro. Meu pai, logo atrás dela, disse que eu não deveria pensar assim, pois então aconteceria, como foi com ela. Eu só respondi que o pensamento invadiu a minha cabeça, não que eu quisesse.
Enfim, até a 32ª semana de gestação estava tudo bem. Fui fazer um ultra-som de rotina e foi constatado que ele estava muito pequeno para a idade gestacional. A médica me pediu para que repetisse após uma semana o exame. Depois de exatos 8 dias, ao repetir, ele continuava com o mesmo peso e altura. Do exame fui para o consultório mostrar a ela e, ela ainda acrescentou que ele estava centralizando oxigênio. “Oi? O que significa isso?” – Quando os médicos usam uma linguagem que não conhecemos ou não sabemos o significado, o susto só aumenta. “Quer dizer que ele está em sofrimento fetal, está centralizando oxigênio nos órgãos vitais. O pouco oxigênio que ele está recebendo, é apenas para mantê-lo vivo. Os outros órgãos não estão mais recebendo.” Nem sei explicar, o susto foi grande, mas como eu esperava que fosse algo sério, apenas levantei da cadeira, já ligando para a minha avó me encontrar na maternidade, que eu e o marido já estávamos a caminho. Eram umas 16:30. Minha cesárea de emergência foi marcada para as 19h.
Atrasou um pouquinho, mas não lembro exatamente a hora que entrei na sala de cirurgia. Eu consegui, desde o momento que pisei na maternidade, esvaziar minha mente. Ficar nervosa só pioraria minha situação. Então, juro, consegui me manter numa calma que nunca senti antes. Levaram-me para a sala de cirurgia e, quando entrei e começou o procedimento pré-operatório, aí sim eu fiquei nervosa. “O acompanhante só pode entrar após anestesia” - disse o médico. Ok. O anestesista ia começar, após limpar-me, virou-me de lado e aplicou uma baita injeção no meio da coluna – e eu não podia mexer sequer 1 cm. Aí perguntou: “Consegue elevar as pernas? “ E eu conseguia. Após ele perguntar isso umas 3 vezes, eu não conseguia mais, apenas mexia os pés pros lados. Aí: “Então podemos começar”. “Ei, mas eu ainda mexo os pés!!”. “Não, tudo bem, só não pode conseguir levantá-los.” – MEDA . Marido ainda não tinha entrado e eu perguntei umas 10 vezes “Cadê ele?” Imaginei que, ou tivesse desmaiado lá fora ou, não ia aguentar entrar. Até que, ele entrou, estava branco de um jeito que nunca vi [e ele é moreno]. Pude vê-lo arregalar os olhos ao ver o começo da cirurgia e, pedi que ficasse atrás do pano azul comigo, que não olhasse de jeito nenhum o procedimento. Ele ficou segurando minha mão, suava mais que eu e, não conseguia dizer uma palavra até a metade da cirurgia. Depois falava de tempos em tempos que ia ficar tudo bem, ia dar tudo certo. Eu ri e disse que ele estava mais nervoso que eu, que eu que deveria estar falando aquilo. O anestesista ficava acariciando meus cabelos e conversando comigo sobre tatuagens. Depois que tudo começou, eu voltei a ficar calma – não tanto quanto na recepção. Após poucos minutos a médica diz: “Você só vai poder vê-lo muito rápido, pois ele vai direto para a incubadora.” Ok. Então, rapidamente, abaixaram o pano azul e, só vi uma cabeça bem pequena com uma bolinha atrás [era uma meningoencefalocele – quando o crânio tem um buraco, no caso dele, pequeno e, por esse buraquinho herniou meninge e líquor], duas orelhas que nunca vi tão pequenas e, não ouvi o choro, mas disseram que ele chorou sim – inclusive meu marido. A única coisa que falei foi: “Mas ele é muito pequeno!” Aí caiu a ficha e chorei pra cacete. Fui para o quarto, meio doidona da anestesia – ainda bem, porque isso ajuda a segurar o tranco, confesso. Meu marido foi logo vê-lo e, eu só poderia no dia seguinte. Não deixaram levantar-me, apesar de eu ter insistido [tenho certeza que eu poderia, eu teria aguentado, essas pessoas parece que não conhecem a força de uma mãe]. Mas, eu não poderia desobedecer, estavam no meu quarto, minha avó, meu pai [que estava mais nervoso que eu e todos, como sempre], minha mãe de criação e minha médica. Eu conseguiria levantar e ir, mas não lutando contra eles, rs. Meu marido voltou trazendo no celular várias fotos dele, que usava um gorrinho na cabeça, uma fralda que, apesar de ser tamanho RN [recém-nascido], ia até o meio da barriga dele, um tubo pelo nariz que ia até o estômago e, um cateter na mão pra soro. Ele tinha um nariz enooorme. Lembro que achei engraçado pois só poderia ser assim, eu nariguda e pai narigudo... Mas já tinha um olhar cheio de amor, não consigo explicar. Fiquei olhando as fotos e, puta da vida que só ia vê-lo no dia seguinte. Não consegui dormir, meu marido roncou no sofá.
Quando era lá pelas 9h fui vê-lo, mas já sabia que teria que esperar até as 10h, que era o horário da UTI abrir.  Ficamos eu e o marido olhando pela janela e, ele apontando em qual incubadora Johann estava. Eu não conseguia vê-lo ainda. Quando entramos, parece que eu ainda não estava entendendo bem o que acontecia, eu apenas seguia os instintos. Não fiquei chocada ao vê-lo ali, fiquei agoniada, mas senti que ia ficar tudo bem. Conseguia ficar calma, não fiquei nada nervosa. Ele estava nas melhores mãos e isso me tranquilizava. Não pude ainda pegá-lo no colo, lavei bem as mãos e fiquei com elas sobre ele, em sua barriga, sentindo sua respiração, seu coraçãozinho, mas por pouco tempo, senão a temperatura da incubadora diminuiria. De tempos em tempos eu colocava minhas mãos sobre ele, ajeitava sua posição, o agasalhava. Desde que o vi pela primeira vez, ele olhava fixamente nos meus olhos e nos olhos do pai. Todas as enfermeiras vinham comentar que nunca tinham visto isso. Uma enfermeira veio dizer-me que seria bom que eu tentasse ir ao lactário para tirar meu leite para alimentarem ele através da sonda já com leite materno. Fui, consegui e, de 3 em 3 horas era essa rotina. E ficava assim até 20h, indo e voltando do quarto para a UTI e lactário. Eu não aguentava muito tempo sentada ou de pé devido à cirurgia. Era muito estranho deixá-lo ali, digo, eu sabia que só assim ele ficaria bem, mas dava um aperto não poder pegá-lo, confortá-lo, dormir com ele. Nossa, ir embora dormir no quarto e ele na UTI era terrível. No segundo dia a médica veio me comunicar que eu teria alta, eu fiquei apavorada e insisti que não estava passando bem, para que ela me desse alta no dia seguinte. Ela disse que teria que dar uma explicação para o meu plano de saúde, para que ele pudesse autorizar mais um dia. Eu disse: “Ah fala que estou com infecção urinária, tomando medicação e sem conseguir levantar de dor”. Funcionou. Mas eu ia, a todo momento, à UTI para vê-lo e ainda ao lactário de 3 em 3 horas. Ainda mais que, eu estava melhor, então conseguia passar mais tempo na UTI sentada numa cadeira, do que deitada no quarto. Nesse dia veio uma geneticista examiná-lo a pedido do pediatra e me consultar. Conversamos e, ela já me avisou sobre ter suspeita para uma síndrome, que se tratava de algo no metabolismo, provavelmente ele seria bem pequeno e se trataria com endocrinologista, foi a única coisa que ela me adiantou. Disse que ele ficaria bem. Eu não perguntei muito, não estava com cabeça para me preocupar sem ter certeza de que ele tinha ou não algo. Nem era o momento, ele só faria o exame após a alta. No dia seguinte, vieram perguntar se melhorei. “Não, nem um pouco”, eu disse. Prolongaram por mais um dia a minha internação. A enfermeira que vinha me medicar [bem ou mal, tinha uns remédios para continuar tomando] disse que parecia que eu não queria ir embora pra ficar perto do bebê, que todas as mães [ou quase todas] de bebês em UTI agiam daquele jeito, queriam ficar internadas. Eu ri e, disse “Claro, eu moro longe daqui e, acho que mesmo que morasse perto me sentiria longe, como continuo sentindo, mesmo com um andar de diferença.” No último dia em que fiquei, era óbvio que eu estava ótima, fiquei o tempo todo na UTI, só saí para o lactário e para comer.
Na hora de ir embora, as enfermeiras, querendo ‘consolar-me’, diziam que ia ser bom eu ir pra casa, descansar e conseguir dormir. Tudo bem, eu entendo que só isso que elas poderiam falar, porque óbvio que ia ser mil vezes pior. Eu não ia conseguir dormir, eu não estava cansada e, se estivesse, não ia ser longe do meu bebezoco que eu ia ficar descansada. Eu fiquei triste de ir embora, mesmo que por 12 horas apenas. Que seriam 12 longas horas. Dei até logo para ele e fui. Cheguei em casa me sentindo vazia, passava um bom tempo dentro do quarto dele, sentada na poltrona e olhando para o berço. Eu me sentia tranquila e não nervosa. Só conseguia me sentir aliviada por ele não ter morrido ainda dentro da barriga, estava internado sob cuidados e, eu confiava naquela equipe. Era apenas saudade.

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